janeiro 31, 2008

Somos aquilo que comemos

"Não sou esperto nem bruto
Nem bem nem mal educado
Sou simplesmente o produto
Do meio em que fui criado"

António Aleixo
Ao ler um artigo sobre nutrição com o título «Somos aquilo que comemos», extrapolei da nutrição para a socialização e respectivo processo de formação dos cidadãos que somos. E podemos concluir que, também neste capítulo "somos o que comemos". E isso fez-me evocar um texto que escrevi, há já uns anos, e que continua actual e aqui colo, com algumas adaptações:

O nosso país sofre de um mal de letargia endémica. É uma autêntica pescadinha de rabo na boca a produzir e reproduzir os males e malefícios que nos vão afundando cada vez mais. Os cidadãos do país que deu «novos mundos ao mundo» não são, em nada, inferiores aos seus pares de outros países que, em quase todos os rankings olhamos de baixo para cima. A sucessão de governos que fazem de conta que governam transformou-nos num autêntico cemitério onde os mortos-vivos pululam e vão fazendo de conta que estão vivos e se movimentam, ao sabor da maré, sem chama e sem entusiasmo.
Tudo se resume a uma postura derivada de uma mentalidade que se foi construindo de equívoco em equívoco e que deixou a generalidade da população sem moral e sem objectivos. E o exemplo que vem de cima não nos recomenda. O Estado não garante a justiça e a execução das leis; não nos respeita nem tem uma atitude pedagógica no trato com os cidadãos, não é pessoa de bem, não paga a horas mas exige de nós de forma unilateral. Os nossos governantes e gestores públicos esquecem-se que estão num país pobre em que a generalidade da população tem carências de toda a ordem mas não prescindem (os detentores do poder) de esbanjar o que nos sacam em todo o tipo de benesses e mordomias como reformas chorudas e precoces, automóveis topo de gama, assessores aos montes...
O modelo de cidadão que temos no nosso imaginário colectivo é um consumista, com um bom carro, férias no estrangeiro, tudo do bom e que ganha muito dinheiro e trabalha muito pouco. E para obter isto vale tudo - endividamento, fuga aos impostos, falcatruas, corrupção... E a base que devia suportar estas aspirações - a dedicação ao trabalho e a produtividade consequente não são possíveis. Porquê? porque as empresas não investem porque não podem, não querem ou não sabem e os trabalhadores são mal pagos e estão descrentes e como tal não pode haver sucesso. Para manter o nível de vida que ambicionamos, fazemos mais umas coisas por fora. Os polícias conduzem um táxi ou fazem segurança, os professores dão explicações, os políticos fazem umas habilidades, o mecânico, o trolha, o picheleiro, etc fazem mais uns biscates, outros vendem seguros, apartamentos ou tuperwares, os administradores de empresas acrescentam mais umas quantas ao rol, os médicos desdobram-se como podem, etc. Enfim todos tentam desenrascar-se para fazer face ao consumismo vigente. E, claro que assim não podemos render na nossa actividade principal e, mesmo aqueles que se encontram motivados e tentam desenvolver um trabalho sério acabam por ser apanhados nas malhas do marasmo e a duvidar se é assim que deve ser ou se não deverão fazer como os outros que se desenrascam e «têm sucesso». E a nossa juventude, imbuída desse mesmo espírito, não se dedica seriamente ao estudo e não pode ter sucesso. E o insucesso leva ao abandono escolar e à iliteracia generalizada, entrada precoce no mundo do trabalho e falta ou inexistência de quadros técnicos ou baixa qualificação profissional. E, como o trabalho não nos realiza, temos baixa auto-estima e vamos para a estrada procurar a realização, armados em reis, com as consequências que sabemos. E a baixa produtividade estende-se à saúde, justiça, fiscalidade e temos o quadro que bem conhecemos.
Quando sairemos disto?

janeiro 30, 2008

Bastonário 2 – Políticos 0

O Bastonário da ordem dos advogados voltou a repetir, ontem, na cerimónia de abertura do ano judicial, alto e bom som, as acusações que já fizera e que tanto parecem ter incomodado alguns políticos. Andei distraído ou, da segunda vez, já nem houve reacção por parte destes?
Fico com a nítida sensação de que, em vez de se pretender apurar responsabilidades e fazer justiça, nas entrelinhas do que foram as várias reacções, transparecia outro género de preocupações, centradas no denunciante e não nos factos denunciados.
Parece que a toda gente conhece os factos em causa e o inquérito prometido se destina apenas a criar a ilusão que se vai fazer alguma coisa enquanto a poeira do esquecimento não acaba de assentar.
Ou estarei enganado?
Plus ça change, plus c'est pareil!

janeiro 29, 2008

Abertura do ano judicial

Ao ver a reportagem da cerimónia de abertura do ano judicial, chamou-me a atenção a quantidade de artistas, quase todos pagos pelo Estado, que são necessários para fazer a dita abertura.
O artista número um nesta matéria, o ministro da Justiça, depreendo que seria imprescindível para abrir capazmente o ano judicial, começou assim o seu discurso: (Não vou colar aqui o discurso, isto é só para ter pé de dizer quem são os artistas que são necessários para abrir o ano Judicial como deve ser):
Senhor Presidente da República
Senhor Primeiro-Ministro
Senhor Vice-Presidente da Assembleia da República
Senhor Presidente do Supremo Tribunal de Justiça
Senhor Presidente do Tribunal Constitucional
Senhor Procurador-Geral da República
Senhor Presidente do Supremo Tribunal Administrativo
Senhor Bastonário da Ordem dos Advogados
Sua Eminência Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa,
Senhores Ministros da República para os Açores e Madeira
Senhor Provedor da Justiça
Senhores Presidentes dos Tribunais Superiores
Senhores Procuradores-Gerais Distritais
Senhores Magistrados Judiciais
Senhores Magistrados do Ministério Público
Senhores Advogados
Excelentíssimas Autoridades Civis, Religiosas e Militares
Minhas Senhoras e Meus Senhores
XVII Governo Constitucional - presente, pela primeira vez, nesta cerimónia de abertura do ano judicial.
E, ao que parece, por lá passaram a tarde porque isto de abrir o ano judicial não deve ser pêra doce.
Deve ter custado um balúrdio ao erário público, muitas tarefas ficaram por fazer, principalmente na justiça mas não havia outra solução, já estamos no fim de Janeiro e alguém tinha de abrir o ano judicial, seja lá o que isso for.

janeiro 28, 2008

Apupos

Parece que os deputados do PS têm recebido muitas queixas de cidadãos, nomeadamente de professores acerca dos procedimentos prepotentes por parte do governo e pretenderam questionar elementos da equipa ministerial da Educação, Ministra incluída. Mas a reunião não terá corrido bem e acabou com acusações mútuas e a equipa da Educação a considerar que os deputados estavam a dar voz a "professorzecos".
É elementar dizer que o respeito devido a todos os cidadãos devia ser uma constante e um exemplo que, seria suposto, vir de cima. Esta tirada, sintomática do despudor, prepotência, arrogância e falta de respeito deste governo já nem sequer espanta. É apenas mais do mesmo.
Claro que, assim, não admira que o Sr. Primeiro Ministro diga que não se importa de ser apupado. O treino já é tanto! E, com saídas destas por parte da equipa que chefia, não me espanta que os apupos passem a ser a única manifestação pública a que passará a ter direito.

janeiro 27, 2008

O Coiso


Na ronda habitual pelos blogues favoritos, encontrei, no O Coiso, um testemunho do autor acerca dos "Cinco meses sem fumar". Aqui fica, juntamente com os comentários que eu e outros frequentadores lá deixámos:

A sensação de liberdade é magnífica!
Não estar sempre à espera do momento para fumar mais um cigarro, não cheirar a tabaco, não ter a boca a saber a almanaques Bertrand de 1923 e seguintes, não ressonar, não tossir, não ficar a arfar depois de subir uma ladeira, não andar sempre à procura do isqueiro, não ter cinzeiros para despejar, não sentir o coração a bater descompassado depois de três cigarros seguidos, não ser olhado de lado pelos próprios filhos, não estar com medo de queimar o sofá com o morrão do cigarro, não ter buracos no tapetes do carro, ter menos pedra nos dentes, não ter os dedos amarelos, não ter que me chatear por causa da hipocrisia da lei anti-tabaco…
…poupar cerca de dois mil euros/ano…

Pinoka Says:
Sei como é. Já lá vão quatro anos que deixei e não me arrependo, nem tinha que me arrepender.
Mas o prazer que aquilo dava… nunca vou esquecer.

pachita Says:
Já andava há algum tempo para comentar e hoje resolvi fazê-lo.
Vou a caminho dos 3 meses sem fumar. Sem champix, sem adesivos ou pastilhas. Foi mesmo a frio e não custou nada. Há dias em que apetece fumar um cigarro, em que tenho uma vontade terrível de fumar um cigarro, mas tenho conseguido controlar esses impulsos.
Mas o balanço é bastante positivo, sinto-me muito melhor, com muito mais energia e mais saudável.
Parabéns! :)
PS - Também passei pela fase de contar os dias. :D

Xeringador Says:
Subscrevo por inteiro o teu comentário e revejo-me a recitar todas as vantagens enunciadas sobre a vida sem fumo. Eu acrescentaria o bem-estar psicológico resultante do aumento da auto-estima que nos faz “trazer o rei na barriga”. Parabéns pelos cinco meses. Tenho acompanhado o teu percurso desde o início e fico contente por ti pois, tendo eu próprio deixado o tabaco há quase um ano, sei bem o calvário que é a dependência do dito.
Vou colar o teu desabafo no meu blogue.

Contador de visitas

No dia 24.01.08, com o apoio, via messenger, do meu amigo Pedro Carneiro, instalei um contador de visitas.
Quando o Pedro encontrou dificuldades na instalação do dito disse-lhe que não valia a pena insistir pois as visitas eram tão escassas que eu conseguia perfeitamente contá-las à mão. Mas, parece que não é bem assim. Olhando para a vertiginosa escalada do contador tenho de concluir que, afinal, não estava sozinho.
Se houver alguém mais atento que tenha olhado para o contador irá estranhar ver o número lá registado inferior à safra já atingida anteriormente. Como o registo de visitas se encontrava por trás do tí­tulo e já havia justas reclamações por parte do comentador mais assíduo, houve que mudá-lo. No decurso dessa operação, realizada hoje, perdeu-se o registo de 142 visitas que já levava e voltou ao zero. Isso para o Xeringador não é problema, supomos que também o não seja para os nossos visitantes. Com tempo lá voltaremos a chegar.
Pois sê bem vindo à humilde casa do xeringador!
Será uma honra contar contigo e falar-te das coisas simples da vida de todos os dias.

janeiro 26, 2008

Afinal quais são os maus?

Desde que este governo tomou posse, tenho ouvido do pior acerca dos professores. Estava quase convencido que mereciam ser tratados daquela forma - malandros, cambada de mandriões, faltosos, etc. Em consonância com o discurso vi como foram maltratados com um estatuto realmente penalizador. Depois veio o diploma da avaliação e, recentemente, para os rebaixar ainda mais, o D.L sobre a gestão das escolas, ainda em discussão pública.
Espero bem que os políticos tivessem razões para os castigar porque, com ou sem culpas no cartório, a forma como têm sido tratados, geradora de desconforto e enorme mal-estar entre a classe, vai trazer consequências muito graves para a Educação que tanto precisava de outro tratamento.
Quando já estava quase a concordar com os políticos e a ajudar a bater nos professores, com a divulgação do estudo da "Gallup" realizado para o Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, fiquei baralhado. Diz o estudo que os professores são, de longe, o grupo que inspira maior confiança, tanto em Portugal (42%) como na média dos restantes dezassete países onde os estudo se realizou (44%).
Os políticos aparecem na cauda do pelotão com o odioso de serem os menos confiáveis.
E são esses mesmos políticos que não merecem a confiança de ninguém que atacam assim os professores? Alguma coisa aqui me está escapar, ficarei ansiosamnente à espera de uma explicação. Mas quem poderá explicar? Políticos não!
Vamos supôr que estamos numa democracia e respeitamos a vontade dos cidadãos, manifestada no mesmo estudo, que defendia mais poderes para os professores e menos para os políticos. Então poderíamos pôr os políticos a provar o seu próprio veneno e incumbir os professores de legislar sobre matérias respeitantes aos políticos. E escolheríamos uma matéria de pouca importância, por exemplo - Regras para políticos retirados da política (benesses, mordomias, reformas chorudas, sinecuras, tachos nas empresas...). Acho que seria um exercício interessante e iria restituir alguma moral à classe política além de mais respeito dos cidadãos pelos políticos e vice-versa.